O tratamento de cálculos renais ganhou um novo capítulo com a chegada do laser de fibra de túlio, tecnologia que já está disponível em hospitais públicos e privados do Brasil. Na minha análise, esse avanço representa uma mudança concreta na forma como pacientes com pedras nos rins são tratados, com cirurgias mais rápidas, menos invasivas e recuperação mais ágil.
Eu acredito que vale explicar primeiro como funciona a técnica que já é considerada padrão-ouro para esse tipo de tratamento, antes de detalhar as novidades mais recentes.
Como funciona o tratamento com laser para cálculo renal
A ureterolitotripsia a laser, também chamada de ureterorrenolitotripsia, é um procedimento endoscópico. O urologista introduz um instrumento fino, rígido ou flexível, pela uretra, atravessando a bexiga até chegar ao ureter ou ao rim. Não há cortes externos nem cicatrizes.

Hoje essa técnica é indicada principalmente para dois grupos de pacientes: aqueles com cólica renal causada por cálculos que obstruem o sistema urinário no ureter, e pacientes com cálculos renais maiores do que 5 mm, mesmo sem sintomas, como forma de evitar complicações futuras e novas crises de dor.
Uma vez no local da pedra, o médico utiliza um laser para fragmentá-la em pedaços menores, que são retirados durante o procedimento ou eliminados naturalmente pelo corpo depois. O laser de Holmium (Ho:YAG), com comprimento de onda de 2100 nanômetros, é historicamente o mais usado, já que é altamente absorvido pela água e pelos tecidos, o que favorece a fragmentação das pedras.
O que muda com os lasers de alta potência
Nos últimos anos, surgiram sistemas de alta potência que otimizam ainda mais esse processo. Um exemplo é o laser MOSES, uma evolução da tecnologia Holmium que usa um sistema de modulação de pulsos para melhorar a transmissão de energia durante a fragmentação do cálculo.

Estudos publicados no Journal of Endourology, segundo informações repassadas por sites médicos especializados, apontam redução de até 20% no tempo do procedimento, aumento de 33% na eficiência de fragmentação e 50% menos movimentação das pedras durante a cirurgia com esse tipo de laser.
Laser de fibra de túlio: a tecnologia mais recente
A principal novidade identificada é o Thulium Fiber Laser (TFL), conhecido no Brasil pela marca comercial Fiber Dust. Esse equipamento atinge pico de potência de até 500W, com faixa de energia de pulso entre 0,02 e 6 joules e frequências de pulso de 1 a 2.500 Hz. Os aparelhos também são menores e mais leves do que os lasers de Holmium tradicionais.
Em comparação direta com o Holmium, o TFL permite fragmentação até duas vezes mais rápida e produz de quatro a cinco vezes mais pulverização do cálculo, o que tende a reduzir o tempo total de cirurgia. Outro ponto observado é que, mesmo utilizando mais energia, a retropulsão (o deslocamento da pedra durante a aplicação do laser) é menor em comparação ao laser de Holmium.

Onde a tecnologia já está sendo usada no Brasil
O Hospital de Clínicas da Unicamp foi o primeiro do país a testar o sistema Fiber Dust, em setembro de 2022, em três pacientes. O resultado foi considerado excelente, com redução de até 50% no tempo de cirurgia e mínima quantidade de fragmentos residuais.
Já a Rede Mário Gatti de Urgência, Emergência e Hospitalar, em Campinas, passou a utilizar o mesmo sistema de laser de alta potência em 16 de agosto, para tratamento de litíase renal e enucleação de próstata. Segundo Fábio Thadeu Ferreira, coordenador do Serviço de Urologia da rede, o Mário Gatti foi o primeiro hospital do SUS da região de Campinas a adotar a tecnologia, e dois pacientes passaram pelo procedimento no dia da implantação. A reportagem destacou ainda que o novo equipamento permite tratar o cálculo renal de forma minimamente invasiva, com redução de 50% no tempo cirúrgico em relação ao método habitual.
Mais recentemente, em 29 de setembro de 2025, a Ebserh informou que o Hospital Universitário da Universidade Federal do Piauí (HU-UFPI) retomou procedimentos endourológicos para tratamento de cálculos renais pelo SUS. A equipe já realizou a quebra de cálculos da bexiga sem cortes (cistolitotripsia) e o tratamento de cálculos no ureter com laser e aparelhos de ultrassom, usando a chamada ureterolitotripsia rígida, a mesma tecnologia empregada em hospitais privados. O próximo passo programado pela equipe é a realização da ureterolitotripsia flexível, considerada a técnica mais moderna disponível atualmente.
Por que esse avanço importa para a população
O cálculo renal afeta até 12% da população mundial e representa cerca de 30% dos atendimentos em emergências urológicas no Brasil. Por isso, a ampliação do acesso a tecnologias mais eficientes, inclusive dentro do SUS, tem impacto direto na vida de milhares de pacientes.
Na minha avaliação, a escolha do tratamento continua dependendo de fatores individuais, como tamanho, localização e composição do cálculo, além das características de cada paciente. Ainda assim, a chegada de lasers mais potentes e precisos amplia as possibilidades de procedimentos mais rápidos, com menos tempo de internação e retorno mais ágil às atividades do dia a dia.


